A VIAGEM
Solidários até Dakar. Porquê?
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Há 10 anos um grupo de amigos com 5 jipes decidiram ir até á Mauritânia, nessa altura não sabiam bem porquê. Felizmente fazíamos parte desse grupo.
Hoje sabemos bem porque decidimos propôr este programa. A nossa ida em 1999, a participação no Lisboa-Dakar em 2006 e 2007 e a presença (viver) durante 3 anos na Mauritânia fez-nos acreditar que muitas outras pessoas gostariam de fazer uma viagem à Mauritânia e ao Senegal. Conhecer a mítica cidade, Dakar e conhecer aqueles 2 fantásticos países foi o propósito da viagem. A Mauritânia com a sua beleza maior, o deserto e o Senegal, a cor da Africa negra. E a solidariedade em que ficou? Depois dos primeiros contactos, nomeadamente com o Dr. Rui Ferreira (Leirivida) ficou claro que a viagem não podia deixar de fora aquilo que mais mexe com todas as pessoas que visitam a Mauritânia, a injustiça. De facto não é justo que se possa ter tão pouco, quando é tão fácil juntar alguma coisa que na Europa não tem interesse e neste país africano significa tudo.
Entregámos em M´Bout uma ambulância, gentilmente cedida pelos bombeiros voluntários de Leiria e um lote de medicamentos oferecidos por laboratórios farmacêuticos e por recolha feita pela Clínica Leirivida (aproximadamente 20000 embalagens).
Os 14 jipes participantes na expedição percorreram 9600 kms, dos quais 3000 kms em pistas de terra (areia, terra e praia) em 18 dias. Não foi pouco mas na verdade África é de facto muito grande e tivemos vontade de ver o mais possível… muito ficou por ver, fica para a próxima.
Algeciras foi o local do encontro para a grande viagem. Beijos, abraços e apresentações, o entusiasmo era muito e tínhamos razão para isso. Durante a viagem até à fronteira da Mauritânia foi tempo de, via rádio, a caravana se conhecer melhor e a organização dar algumas dicas sobre o que se iria passar quando entrássemos em pista. Todos foram baptizados com nomes de código (ver caixa) para facilitar a comunicação via rádio (VHF e/ou CB).
Bir Gandouz / Chinguetti (4º e 5º dias)
Na fronteira tínhamos o amigo Sidi à nossa espera, o que em muito facilitou as burocracias de entrada na Mauritânia. Jamal o “chauffer” na nossa pick-up de apoio também estava por lá. Foi altura de nos separarmos temporariamente da nossa ambulância que seguiu por asfalto até M’Bout e nós seguimos pela pista da linha do comboio.
Os primeiros kms da pista começam com areia e com os primeiros atascanços. Metade da caravana ficou atascada, foi tempo de baixar a pressão dos pneus e de alguma formação. Foram bem utilizados os 15 minutos ai gastos pois dai para a frente as coisas começaram a correr melhor. A caravana começou a rolar com algum ritmo embora ainda sem o ritmo que fazia falta, temos de dar tempo ao tempo. Na verdade grande parte da caravana tinha muito pouca ou nenhuma experiência em condução em areia.
A pista entre Bir Gandouz e Atar, sentido Oeste/Este, vai sempre paralela à famosa linha do comboio de transporte de minério de ferro, o fabuloso comboio pode contar com centenas de carruagens formando o maior comboio do mundo, é de facto único ouvir em pleno deserto a passagem destas ruidosas locomotivas a diesel.
Infelizmente não foi possível reparar na pista uma avaria grave no sistema de alimentação (bomba injectora) do “Escaravelho”. A organização foi obrigada a levar o Ford Maverick até ao asfalto mais próximo (felizmente não muito longe, a aproximadamente 100 kms) e proceder à reparação do jipe em Nouakchott. A restante caravana seguiu o seu destino, direcção Atar.
O nosso Dr. teve que entrar em acção, o Olavo “Gorila” teve um encontro imediato ao entrar no jipe e zás, dedo da mão direita partido, tala, ligadura e pode seguir, por uns dias tem que dar o volante ao seu companheiro, o David passou a “Chaufeur”.
Ao entardecer montamos o nosso 1º acampamento no deserto, bem perto dos monólitos Aicha, gigantes pedras negras em pleno mar de areia que continuam hoje a ser um mistério e um fenómeno geológico.
O “Suricata”, amante na condução em areia não consegue resistir a dar mais umas gazadas nas dunas que circundam o acampamento. O que não devia acontecer acontece, cai numa “covete” de “fez-fez” e na tentativa de sair dai, parte uma junta homocinética do Toyota, e temos trabalho nocturno. Felizmente que existe uma homocinética de reserva e em pouco tempo o “Suricata” está de novo em marcha.
Esta avaria serviu para lembrar a todos que o deserto Mauritano é mau local para avarias e é necessário preservar a mecânica dos jipes pois muitos kms ainda estão pela frente.
A saída para o 2º dia da pista do comboio foi bem cedo 6:30 horas, o nosso destino é o Oásis de Terjit perto de Atar. Este oásis merece a visita, ai parámos para almoçar e descansar um pouco. O cansaço era muito e para isso muito contribuiu a subida da temperatura, os nossos termómetros chegaram a marcar 45ºC.
Atar, cidade obrigatória para todos os que por aqui cruzam o deserto, ponto de dormida, ponto de abastecimento e enfim, pela sua localização será sempre ponto de partida ou de chegada. Para nós foi as duas coisas, chegada da etapa da linha do comboio, abastecimento e partida para a etapa seguinte, Chinguetti-Tidjikja.
Ao inicio da noite fizemos a ligação que nos faltava, uma excelente pista leva-nos até Chinguetti onde chegámos a tempo de uma merecido banho e de um jantar no terraço do albergue. Talvez o melhor jantar de toda a viagem, o grupo começa a ganhar identidade própria, todos se sentem agora mais à vontade. Na verdade a Mauritânia é um destino que pode assustar um pouco, mesmo para aqueles que já viajaram algumas vezes em terras marroquinas. Aqui as coisas são bem diferentes. O isolamento, a pobreza, o calor, a língua, o deserto, tudo nos faz sentir pequenos e com poucas defesas. Desta forma é natural que a camaradagem e a entreajuda aumentem exponencialmente no grupo. Tudo isto se respira neste jantar entre amigos num terraço de um albergue de Chinguetti.
Chinguetti / Tidjikja (6º e 7º dias)
A manhã mostra, aquilo que de noite não foi possível ver, a beleza e o encanto de Chinguetti.
Chinguetti, um antigo Ksar (cidade fortificada) fundada no séc. XI, é desde 1996 Património da Humanidade da UNESCO. Preserva ainda hoje as suas famosas bibliotecas onde se guardam manuscritos dos séculos XII e XIII.
Antes da partida entregámos cerca de 5000 embalagens de medicamentos ao responsável pelo Hospital local. Ficamos com os jipes mais vazios e com o coração mais cheio, na verdade temos a certeza que este simples gesto pode fazer a diferença para muita gente que por aqui vive.
Depois da visita à cidade antiga de Chinguetti iniciamos mais uma tirada dupla, uma etapa em dois dias. Chinguetti fica verdadeiramente rodeada por areia do grande deserto do Sahara e dela não podemos fugir. O inicio da pista para Tidjikja perde-se várias vezes por entre a areia, escolhemos o melhor possível de modo a evitar o que não se pode evitar a areia. Se nos 2 primeiros dias foi possível andar com alguma facilidade na areia as coisas agora complicam-se um pouco pois estamos num mar de dunas, na verdade não temos outra vista até ao horizonte, só areia. A progressão é bastante lenta com inúmeros atascanços, nada que não se resolva com a ajuda de todos.
Após alguns kms (mais ou menos 100) deixamos as dunas e areia e passamos a seguir uma pista bem marcada e com alguma pedra, é hora de encher um pouco os pneus.
A passagem por uma aldeia perdida junto a um rio seco, ficou marcada para sempre em nós e nas crianças dessa aldeia. Paramos para distribuir algumas roupas e brinquedos a alegria das crianças era de fazer chorar. Aos poucos começamos a perceber que algo de errado se passava, muitas mas mesmo muitas dessas crianças acompanhadas algumas por adultos pedem-nos alguns medicamentos para resolver os casos mais banais.
O nosso Dr. entra em acção. Rapidamente o Aveisat (Pedro) passa a enfermeiro de triagem, o Sidi a tradutor, alguns de nós a assistentes e todos ajudam de alguma forma a montar um improvisado posto clínico. Otites, conjuntivites, feridas muito infectadas enfim todos foram atendidos, provavelmente nunca tinham tido um médico na aldeia, entregam-se alguns medicamentos, o Sidi explica qual a posologia e ao fim de algumas horas temos o serviço terminado.
Entre crianças tratadas, mães agradecidas e um jogo de futebol improvisado tudo serviu para nos encher a alma de esperança e os olhos de lágrimas.
Claro uma gota num oceano, mas um oceano não é feito de gotas de água?
A areia na base de uma montanha serve de cenário para montar o acampamento do 6º dia de deserto, mesmo a tempo de ver o pôr do sol, e que pôr do sol!!!
Os jantares em acampamento foram previamente preparados em Portugal, conforme o gosto de cada um, os mais requintados preparam uma sopa de legumes, lulas recheadas, salada de frutas e claro a acompanhar vinho, cerveja ou coca-cola, para o final da refeição um café expresso. Outros preferem a simplicidades de uma lata de atum e um bocado de pão. Ao fim de alguns dias a troca de menus torna-se habitual e saudável.
No 7º dia rumamos até à histórica aldeia de Rachid, localizada nas margens de um rio (agora seco) e de um Oásis, marcam a paisagem.
O “Búfalo” queixa-se de um barulho estranho na transmissão, aquilo que não parecia nada de mais veio a dar umas horas de trabalho no albergue em Tidjikja. Uma cruzeta gripada, com a ajuda dos mais familiarizados com a mecânica, é substituída e temos de novo o HDJ 80 pronto para as pistas.
Tidjikja / Kiffa / M’Bout (8º e 9º dias)
As pistas que percorremos até aqui são utilizadas com alguma frequência, daqui para a frente já não se pode dizer o mesmo. A pista para Kiffa é pouco ou nada visível, muita pedra na parte inicial, demasiada pedra. É Africa no seu melhor, são 2 dias de paisagem muito variada, para quem tem a ideia de que a Mauritânia é monótona pela presença constante da areia tem aqui a prova do contrário. Pedra, areia, erva de camelo, montanha, prados, lagos e rios com água, e sempre muitos e muitos kms pela frente, a beleza de África também está na sua dimensão, o horizonte é mais longe do que estamos habituados. Tudo é grande, o que faz de nós uns seres pequenos e indefesos. As comunicações rádio entre todos os jipes facilitam em muito a progressão, sempre que acontece algo que obriga a uma paragem, é fácil parar a caravana e resolver o problema, quer seja um furo ou um amortecedor partido que é necessário retirar do jipe para evitar mais estragos, caso do “Carapau” que teve que rodar até Saint Louis só com uma amortecedor traseiro, valeu a perseverança do Nuno pois a condução ficou muito, mesmo muito difícil.
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A pista de 270 kms até Kiffa é talvez a mais bonita de toda a viagem, quer pela variedade de paisagem quer pela sua dimensão. A chegada ao palmeiral de El Gheddiya parece mais um local bonito como qualquer outro, mas quando se anuncia que estamos aqui para tentar ver crocodilos todos ficam um pouco desconfiados, será verdade??? O lago entre uma pequena falésia e o palmeiral serve de abrigo a estes estranhos animais e dá de beber a uma caravana de dromedários, Sidi conversa um pouco com o cameleiro que lhe diz que é verdade habitam aqui 3 a 4 crocodilos em permanência. O barulho que estamos a fazer faz com que se escondam nos buracos da rocha. Os mais aventureiros avançam pela falésia na tentativa de ver estes animais, acabam por assustá-los e estes são obrigados a lançar-se no lago, é de facto verdade a existência de crocodilos nestas paragens. Aquilo que hoje é um pequeno lago e um pequeno palmeiral foi no passado um importante rio e uma floresta arborizada, fica aqui mais uma prova do terrível avanço do deserto, hoje só resta uma pequena família de crocodilos, até quando?
O próximo ponto alto do percurso foi o passo de Nega. É sem duvida uma passagem de montanha única, as várias passagens do famoso Dakar por estas paragens fizeram dele um local mítico, quer pela sua beleza quer pela sua dificuldade. São conhecidos em todo o mundo passos de montanha, agora que o passo de montanha seja num mar de areia e de dunas isso já não é tão frequente. O planalto em que seguimos aos poucos aproxima-nos de enormes montanhas e sem nos apercebermos a pista entra em dunas sempre no sentido descendente e acaba por nos colocar noutro planalto a uma cota inferior. É sem dúvida uma passagem maravilhosa, de certo que nenhum de nós a esquecerá.
A planície começa a mostrar outra realidade, aparecem algumas árvores, alguma vegetação e leitos de rios. Este ano foi um ano excepcional de chuva e alguns lagos têm realmente água. A pista em que seguimos perde-se num desses lagos, com o cair da noite é altura de procurar um local para montar acampamento. Toda esta zona perto do lago está coberta de uma nuvem de mosquitos. Qualquer luta com estes pequenos animais é totalmente inglória a única saída foi fugir deles e procurar umas dunas próximas para montar o acampamento.
O contacto com a população local foi a melhor forma de encontrar outra pista que nos leve a Kiffa pela manhã, à noite enquanto procurávamos a pista que evita o lago foi possível ver vários animais que vivem neste inicio de savana, ratos, coelhos, esquilos, raposas e outros bem diferentes dos que conhecemos, ficamos ainda a saber que embora em pequeno número o maior predador da região é o lobo que raramente é avistado.
O 10º dia amanhece com o sol habitual mas parece que as temperaturas acima dos 45ºC do dia anterior nos vão deixar, ficamo-nos com uns simpáticos 40ºC.
O nosso destino é M’Bout onde iremos entregar a ambulância e os medicamentos. A pista que nos leva até Kiffa é uma total novidade, planície, prados e rebanhos de vacas, cabras e dromedários, é uma zona mais temperada e onde se começa a ver aldeias onde a população se dedica à pastorícia.
A entrada em Kiffa para reabastecimento de homens e máquinas, água e gasóleo, mostra-nos onde estamos. A mais importante cidade da região não é mais que um mar de comércio, em qualquer direcção que se olhe vêm-se lojas e mais lojas onde se pode comprar tudo o que é necessário à sobrevivência. Sim pode-se falar de sobrevivência pois por aqui não parece que mais nada importe que o comer e beber para viver. Sente-se a pobreza das gentes, as dificuldades em ter água potável, o lixo amontoado nas ruas, a falta de condições de higiene é o que mais se nota e mesmo assim sempre um sorriso aberto e saudável em cada criança.
De Kiffa a M’Bout a pista começa por ser rápida e em bom piso, mas depressa se torna numa pista mais ou menos sinuosa na savana em que entrámos, quanto mais perto do rio Senegal mais vegetação. E foi essa vegetação que escondeu uma verdadeira armadilha montada para o nosso amigo “Canário”, uma enorme pedra escondida entre o capim.
O HDJ 100 ficou bastante mal tratado, triângulo de suspensão afectado, roda recuada, amortecedor em mau estado, air bags abertos, parabrisas partido, enfim felizmente foi possível recuperar o jipe e seguir até Portugal.
M’Bout / St Louis / Dakar (10º, 11º e 12º dias)
O nosso amigo Syllas esperava-nos á entrada de M’Bout.
Foi tempo de reencontrar a nossa ambulância, descarregarmos as cerca de 15000 embalagens de medicamentos e o nosso Dr. fazer uma pequena reunião como o seu homólogo de M’Bout. Trocaram-se telefones e deram-se os abraços habituais.
Tínhamos à nossa espera todas as autoridades locais para a entrega formal da ambulância e medicamentos, representante do presidente da república, Senador, presidente da câmara e representantes das tribos locais.
Os agradecimentos e votos de boas vindas e convites para o futuro foram uma constante, ficamos com a sensação de que não havia memória de um gesto humanitário deste tipo nesta simples cidade de M’Bout. Não é fácil descrever onde fica M’Bout, o que é M’Bout na realidade o que podemos dizer é que nunca tiveram uma ambulância e que a medicina aqui faz-se quase sem medicamentos pois eles normalmente não existem, por agora ficaram um pouco melhor do que antes disso temos a certeza.
Os convites para ficarmos por aqui foram muitos mas temos uns kms para fazer até St- Louis.
Até Kaedi está em construção uma nova estrada, a obra está a ser feita por empresas portuguesas Tamega, AFA e Peteremp (empresa que nos apoiou nesta expedição).
O rio Senegal que normalmente não se vê desta pista está no seu caudal máximo e á várias semanas que as cheias são uma constante. O enorme rio ladeia a pista quase sempre, é uma vista de cortar a respiração, as aves são a principal atracção para os fotógrafos.
Á chegada a Kaedi, o João faz uma visita rápida aos amigos que aqui deixou (o João trabalhou 1 ano neste projecto da construção da nova estrada). A visita acabou por não ser assim tão rápida e ainda bem. O Augusto (cozinheiro) não nos deixou continuar viagem sem nos oferecer um magnifico almoço de Tibudjin.
Aproveitamos as facilidades das oficinas da Tamega para alinhar um pouco direcção do “Canário”, substituir os sinoblocos dos amortecedores do “Príncipe Tito” e fazermo-nos á estrada, sim finalmente um pouco de asfalto até Rosso. A distância até St. Louis não nos permite fazer a viagem de dia, mas como o programa prevê um dia de descanso em St. Louis todos preferem conduzir toda a noite e descansar no outro dia na piscina ou praia do magnífico hotel.
Os 100 kms de pista antes da fronteira com o Senegal não foram fáceis, o cansaço e as burocracias fronteiriças atrasaram-nos só chegando ao hotel a tempo do merecido pequeno-almoço. A tarde livre levou alguns a optar pelo descanso na piscina, outros a visitar a cidade e ainda calhou a outros fazer algumas reparações nas oficinas locais, finalmente o “Carapau” conseguiu montar uns fabulosos amortecedores usados na traseira do seu toyota KZJ 95.
Pela manhã arrancamos em direcção a Dakar, as sensações mudam mais uma vez, finalmente a tão esperada Dakar. As cores da Africa negra são agora uma constante, as aldeias são bastante diferentes e as pessoas também, tudo está imerso num arco íris gigante.
Fazemos alguns kms de estrada antes de entrar na praia que nos vai levar a Dakar e ao Lac Rose. Não fossem os constantes controlos policiais (mais ou menos fáceis de ultrapassar) e a viagem era uma verdadeira paz. Optamos por chegar ao Lago Rosa vindo pela praia e valeu a pena, foram mais de 100 kms a imaginar verdadeiras corridas de jipes e como será chegar ao fim da grande aventura, o Paris-Dakar. Não tínhamos nenhum podium á nossa espera por isso improvisámos a nossa própria chegada, fotos e mais fotos, muitos vendedores de artesanato enfim estamos em Dakar e a paz não abunda por aqui.
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Para chegarmos mais rapidamente ao hotel, continuámos pela praia até ser possível, mas o elevado número de pessoas que ao Domingo vem até á praia inviabiliza que continuemos pela praia e somos obrigados a entrar no infernal trânsito de Dakar.
Dakar é sem duvida uma cidade única em vários aspectos, o misticismo do nome Dakar normalmente esconde a verdadeira realidade, uma cidade praticamente impossível de se visitar, milhões de pessoas, um trânsito absolutamente infernal, as tentativas de roubo ou de venda fazem qualquer um sentir que corre perigo, não se sabe bem de quê nem de quem mas que se está em perigo está, Dakar é isto mesmo, todos querem visita-la, mas só uma vez.
Nouakchott / Bir Gandouz (13º, 14º e 15º dias)
Deixamos Dakar para trás em direcção novamente a St. Louis, sempre por asfalto, o nosso destino hoje é Nouakchott, capital da Mauritânia.
A passagem da fronteira de dia foi bastante mais simpática e a pista do Parque natural de Dwaling também, de dia podemos ver javalis e aves muitas aves.
A obra de captação e transporte de água do rio Senegal para Nouakchott abriu um nova pista que nos calhou bem a jeito pois levou-nos mais rapidamente até à capital.
A estrada entre Rosso e Nouakchott feita à noite era tudo o que não necessitávamos, estreita com as bermas em muito mau estado e o tráfico de camiões em sentido contrário faz-nos pensar que as pistas não são nada más.
A entrada na capital mauritana deita por terra a ideia de que a capital de um pais é sempre uma grande cidade, iluminada, organizada, limpa e um 100 números mais de coisas a que estamos habituados, aqui não é nada disso que nos recebe mas sim uma cidade onde a desordem é total, estamos em África e na Mauritânia, felizmente acompanhados por guias locais que conhecem isto a palmo.
O último dia de pistas será seguir para Norte pela praia, mais ou menos 150 kms e entrar no Banc D’Arguin. Só podemos entrar na praia ao fim da manhã pois tivemos que nos coordenar com a praia mar. Mais uma vez por um lado reparações nos jipes e por outro, visita á cidade para quem pode. Reapertar a barra panhard do “Principe Tito”, atestar valvulina em alguns jipes que têm fugas várias.
A condução na praia é fabulosa, o mar à esquerda e as dunas à direita fazem desta pista natural uma delícia para os condutores, passamos por algumas aldeias de pescadores com os seus barcos de madeira muito bem pintados, as únicas pessoas que se vêm são pescadores, a nova estrada asfaltada que liga Nouakchott com Marrocos tirou desta pista todo o trânsito de outrora, era banal ver passar por aqui táxis (Mercedes 190), pick-ups e até camiões pois era a única forma de circular desde Marrocos até Nouakchott.
À entrada do Banc d’Arguin temos um guarda que nos lembra que estamos a entrar numa reserva natural e claro a cobrar o ingresso de entrada. O Esqueleto de uma baleia a 2 kms da praia faz-nos perceber que noutros tempos o mar ocupava este lugar e parece que ainda vai voltar a ocupar.
É bem merecida a designação de parque natural pois a existência de flamingos, pelicanos e toda uma alargada fauna, principalmente aves, faz deste recanto um património a preservar.
A nossa amiga “Raposa” não está nos seus dias, ainda há pouco o imobilizador no Discovery mostrou que existia. Não foi fácil pôr de novo em marcha o Land Rover e agora com a entrada em asfalto entra numa vibração assustadora, nada que não se resolva, uma afinação nos rolamentos de roda e a remontagem do amortecedor de direcção que tinha sido retirado pois tinha ganho novo formato com um toque numa pedra.
O nosso amigo Jamal é o único de quem nos temos que despedir antes de sair da Mauritânia, pois o Sidi vem connosco até Portugal.
O Jamal, o seu chá e a sua pick-up ficaram para sempre na nossa memória. Só falando árabe conseguiu cativar todos pela sua simplicidade e amabilidade, até breve Jamal.
Dakhla / Tiznit / Asilah / Portugal (15º a 18º dias)
Deixamos a Mauritânia e entramos em Marrocos. Agora sim parece que estamos a chegar ao fim. Faltam-nos 3000 kms até Portugal todos em asfalto a percorrer em 3 dias, parece fácil mas…
O cansaço de todos incluindo dos jipes, fazem para alguns a pior parte da viagem.
Ainda estávamos a por os rádio cantantes com aquela música que gostamos para viajar largos kms, e a primeira grave avaria, os rolamentos da roda da frente direita do “Gorila” entregaram a alma ao criador, a gripagem foi de tal modo grave que o rolamento ficou soltado à manga de eixo. Desmontar para ver os estragos, a coisa está bastante feia, existem rolamentos e vedantes novos, mas não temos outra manga de eixo. Falamos pelo telefone com os nossos companheiro que vão mais à frente e pedimos que passem por Laayoune e verifiquem se conseguem comprar uma manga de eixo. As horas passam e não há resposta, começamos a pensar como resolver o problema com o material que temos, rebarbadora, berbequim e máquina de soldar de ferramenta não estamos mal mas… e a manga de eixo. A resposta é a habitual por estes lados, a manga de eixo consegue-se arranjar mas só amanhã. Bom vai ser mesmo uma reparação africana. Ao fim de mais uma hora está o material todo no sitio e o Toyota a andar. Em voz baixa fazem-se apostas para quantos kms vai durar a reparação até saltar a roda, bom fez 400 kms até Laayoune e quem sabe se não chegava a Portugal. Por precaução o “Gorila” manda montar uma manga de eixo nova (usada) e segue sem mais problema até casa.
Ainda não estávamos refeitos deste incidente e o “Hipopótamo” começa a fazer um ruído muito raro da caixa de velocidade, algo de anormal se passa. A solução mais sensata foi chamar a assistência em viagem e trazer o Discovery de reboque até Portugal.
Com todos estes incidentes de percurso o grupo só se volta juntar no hotel em Asilah antes de embarcar junto para Algeciras.
Foram 18 dias intensos e fascinantes. À entrada para o barco é tempo de trocar fotografias e telefones e a opinião é unânime, muito cansativo mas muito, muito bons estes dias que estivemos em África.
Até já África.